A ESQUERDA BRASILEIRA ENTROU EM PARAFUSO COM O CONFLITO NA UCRÂNIA

A ESQUERDA BRASILEIRA ENTROU EM PARAFUSO COM O CONFLITO NA UCRÂNIA

Por Belarmino Mariano.

“Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta” (“No caminho com Maiakovski”, Eduardo Alves da Costa, 2003).

Você sabia que os partidos oficiais de esquerda brasileiros ficaram confusos em relação as operações militares russas em território ucraniano? Isso mesmo. Depois de ler as notas oficiais de partidos como o PSOL, PSTU, UP, PCB, PCO, PT, PCdoB e outros de centro esquerda, fiquei chocado com a timidez e até mesmo falta de análise de conjuntura internacional em relação a essa situação histórica destas siglas, com exceção das notas do PCB e PCO, claramente anti-imperialistas.

Nos demais partido, me parece que foram notas feitas apenas pela direção nacional e no máximo a opinião de parlamentares dos partidos, sem ouvir o conjunto dos militantes partidários, pois tenho muitos amigos de esquerda, militantes destes partidos, que opinam completamente diferente das instâncias partidárias.

Até mesmo, algumas declarações isoladas de parlamentares destes partidos destinaram das declarações oficias, sendo mais críticos que seus próprios partidos. Até entendo as declarações do ex-presidente Lula 13 e até m amo da entrevista muito lúcida da presidente Dilma para o Brasil 247, pois como estadistas precisam manter o tom diplomático tradicional dos governos brasileiros.

Destaquei cinco pontos que são contraditórios entre a realidade prevista pelo materialismo histórico e dialético, sugerido por Karl Marx, diante das condições concretas que estão completamente fora das notas partidárias, mas precisavam por princípio, tática e estratégia de orientação de suas bases. A nota oficial de um partido de esquerda deve refletir a realidade, sob pena de quebra da direção e unidade ideológica.

As Notas do PCB e PCO, mantiveram uma análise de conjuntura e clara posição anti-imperialista, com a defesa do fim da OTAN, fim do imperialismo Norte-americano e a restituição do socialismo na Ucrânia, na Rússia e no mundo, demonstrando em especial a realidade histórica da última década de golpe e ataques da extrema direita ucraniana com apoio externo de forças da OTAN.

As demais notas partidárias seguem o mesmo padrão das análises dos partidos de direita e da grande mídia pró-imperialista Norte-americana e da OTAN. Todas condenam as ações russas e se declaram em defesa incondicional da Ucrânia. Fazem uma tímida crítica as ações da OTAN na região, com discursos vazio de defesa da democracia burguesa, pacifismo e restituição da segurança mundial, completamente desprovidas de uma análise da realidade histórica recente, quando esse discurso é conveniente as forças do verdadeiro imperialismo.

Esse além de ser um momento histórico, tambiém deve ser pedagógico, capaz de esclacer as massas sobre as reais intenções e interesses  das forças de extrema direita (neonazistas, neofascistas e outros), que avançaram sob o campo da esquerda, através de golpes políticos, midiáticos cibernéticos, jurídicos e geoestratégicos. Esse é o momento de combater esses forças em todas as frentes.

Parece até que os partidos da esquerda brasileira ainda não entenderam sobre as porradas que vem levando nessa última década, no Brasil, no Peru, na Bolívia, na Venezuela. Mas basta lembrar de Mouro, do congresso, da mídia, das redes sociais, da prisão de Lula etc. Tudo isso ocorreu em escala pior na Ucrânia, ao ponte de o país ser incendiado por neonazistas.

Nas notas dos principais partidos não existe nenhum tipo de condenação ao golpe político na Ucrânia, praticado por grupos de extrema direita de origem neonazista e neofacistas com apoio Norte-americano e da OTAN, que em oito anos tocavam o terror em todo o território ucraniano, inclusive com facções armadas e integradas ao exército regular da Ucrânia, como o Pelotão do Azov, fácil de ser identificado pelo vasto material de propaganda em blogs, portais e canais da internet, divulgando ações e símbolos neonazistas e neofascistas.

Com exceção das notas do PCB e PCO, os demais partidos não indicam os avanços ameaçadores da Otan na fronteira com a Rússia, ao longo dos últimos 30 anos do pós Guerra Fria. Nada sobre o desastroso ação da OTAN na Iugoslávia destruindo completamente o país, além de ameaças através de fronteiras com a Bulgária, Hungria, Lituânia, Letônia e Estônia entre outros.

As notas não tratam sobre as regiões separatistas ou repúblicas populares de Donetsk e Lahansk no leste da Ucrânia, ou sobre a ilegalidade do Partido Comunista ucraniano e da perseguição aos seus dirigentes e militantes. Também não fazem menções a quebra do Tratado Diplomático de Minsk, em 2014 que garantiria o imediato fim dos conflitos nas áreas, mas os ucranianos não cumpriram.

Notas tímidas que até certo ponto, comprometem profundamente o histórico combate ao imperialismo capitalista que é liderado pelos Estados Unidos.

Também notei que existe uma confusão nas interpretações, dando a entender que a Federação Russa, por ter um gigante território e um passado marcado pelo império czarista russo, atualmente pode ser visto como uma potência imperialista. Um erro crasso de nivel médio que precisa ser revisto quando se tratar desse conflito.

A Federação Russa tem um grande território com mais de 17,5 milhões de km², que abriga mais de 100 etnias federadas, inclusive em regiões autônomas da federação, o que a caracteriza como uma federação multiétnica e multinacional, inclusive com tensões internas muito fortes, mas em posições e ambições econômicas, não se coloca nem entre as 15 maiores potências capitalistas do mundo globalizado.

Dentro do mundo capitalista, podemos dizer que a Rússia ainda é um país em desenvolvimento, muito dependente dos seus recursos naturais, em especial os energéticos e minerais, ainda com muitas desigualdades sociais e atrasos tecnológicos.

É verdade que a Rússia possuí um forte arsenal bélico e nuclear herdado da ex-união soviética, que inclusive, serve como força de equilíbrio entre as dez nações que possuem ogivas atômicas. Que em momento algum fez disse um motivo para depois da guerra fria, sair por aí se expandindo e ameaçando o mundo, como fezem os Norte-americanos e seu velho trambolho chamado de OTAN.

As notas poderiam até fazer duras críticas ao presidente Wladimir Putin, por posições de extrema direita, conservadorismo perigoso e perseguição política ao Partido Comunista Russo, além de exigir o respeito aos direitos humanos, pois tudo isso caberia em uma nota de posição política. Mas isso não impediria estes partidos de denunciar que esse conflito só estar ocorrendo devido as ações imperialistas Norte-americanas e da OTAN, que tentam colocar uma corda no pescoço do governo e do povo russo, impondo ações e poderio bélico em todas as fronteiras russas.

Não podemos deixar de denunciar a OTAN, que dobrou de tamanho nos últimos 30 anos, passando de 12 para 30 países, continue ameaçando países e regiões do mundo globalizado. Temos que denunciar as mais de 750 bases militares norte-americanas espalhadas pelo mundo, com contingentes militares assustadores como é o humilhante caso do Japão que se tornou refém de quase 50 mil soldados das forças armadas dos EUA, mantidas lá, desde o final da 2ª GM.

As notas deveriam tratar da defesa incondicional para o Fim da OTAN e da desmilitarização Norte-americana do mundo. Inclusive da Europa, em especial do leste europeu e das fronteiras com a Federação Russa, as notas deveriam, antes de condenar as ações militares russas, denunciar a falta de acordo de membros da OTAN em aproximar, bases militares e tropas em dezenas de países, pois essa beligerância deixa todo o mundo instável.

A realidade histórica é muito clara. Entre o fim da Guerra Fria, desintegração do Leste Europeu e fim da União Soviética, os tentáculos imperialistas e militaristas Norte-americanos, silenciosamente, descumpriu dezenas de acordos e princípios diplomáticos estabelecidos pelo Direito Internacional na ONU, ocupando países, alimentando golpes políticos e expandindo a OTAN de 12 para 30 países, além de ameaçar a segurança regional e mundial.

Fonte da imagem: Batalhão Neonazis de Azov. Revista Galileu, 25/02/2022.

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