Bolsonaro deixa o Brasil de joelhos diante de Putin (Por Juan Arias)

A visita ao seu homólogo russo em um momento de máxima tensão global é a enésima loucura do presidente

A visita do presidente Bolsonaro a Vladimir Putin na próxima semana gerou polêmica dentro e fora do governo brasileiro. Pensa-se que o encontro em Moscou, num momento de tensão em que pode eclodir a qualquer momento uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia envolvendo a Europa e o mundo, escapa a qualquer prudência diplomática. Ainda mais quando não há motivos para o Brasil participar desse encontro, que só servirá para colocar o país de joelhos diante de Putin.

O único motivo da visita é pessoal: Bolsonaro quer a fotografia com o presidente russo para usá-la em sua campanha presidencial e esfregá-la na cara do presidente dos EUA, Joe Biden, enquanto agradece a Putin pelo elogio pessoal que lhe deu na último Cúpula do BRICS.

Segundo especialistas em política externa, a visita de Bolsonaro a Moscou é uma das muitas loucuras a que o presidente acostumou o país. A tal ponto que não só a oposição, mas também seus ministros políticos tentaram convencê-lo a desistir dela. Quando um tópico dá muito que falar, leia tudo o que tem a ser dito.

Quando perguntado a Bolsonaro se ele discutiria a questão candente da crise na Ucrânia com Putin, o presidente respondeu que o faria “somente se ele pedir”. O que Bolsonaro está tentando mostrar – especialmente aos Estados Unidos, onde perdeu seu grande amigo Donald Trump – é que mantém um vínculo forte com a Rússia e tem aliados no exterior. Durante a viagem, ele aproveitará para conhecer o líder da Hungria, o ultradireitista Víktor Orbán, com quem mantém relações próximas. O Brasil precisará de anos para consertar a bagunça de sua diplomacia atual, dizem os especialistas.

A imprensa brasileira intitulou a viagem de Bolsonaro a Moscou neste momento de tensão como alguém caindo “de joelhos diante do Kremlin”. E o pior da polêmica visita é que o presidente pretende usá-la para fortalecer sua campanha de reeleição para o próximo mês de outubro. Suas chances se esgotam todos os dias. De acordo com as últimas pesquisas, o presidente perderia as eleições presidenciais no primeiro turno.

Nesse contexto, Bolsonaro quer agradecer a Putin os elogios que ele lhe fez como “exemplo” de gestão da pandemia, que parece uma zombaria da realidade dos fatos, bem como os elogios relacionados à sua “masculinidade”. “Você mostrou as melhores qualidades masculinas como coragem e vontade”, disse Putin ao brasileiro. Nada poderia soar melhor aos ouvidos de Bolsonaro, cuja homofobia não é apenas conhecida, mas incentivada por ele mesmo. No pior da pandemia, o presidente afirmou que quem ficou em casa por medo de se infectar eram “bichas”.

A homofobia e a misoginia do capitão são conhecidas desde que ele era um deputado obscuro. Na época, ele disse que sua quinta filha acabou sendo uma mulher porque ele “se distraiu”, e que teria preferido que ela fosse um menino. Às vezes me pergunto o que aquela menina de 11 anos pensará sobre seu pai no futuro. Em relação à sua homofobia, basta lembrar o dia em que admitiu que antes de ver o filho chegar “no braço de um bigodudo” preferiria vê-lo morto sob as rodas de um caminhão.

O mais triste para o Brasil, país que em algum momento teve um papel importante no xadrez global, é ter um presidente que se encolhe na política externa a um ponto grotesco que ofende o país. Não adianta a Bolsonaro que até os seus estejam tentando convencê-lo do perigo de visitar Putin.

Em três anos de governo, Bolsonaro ignorou totalmente a Europa, cujos países ele nem visitou. O presidente brasileiro vive preso em seu mundo estreito, criado a partir de seu ódio e de seu sonho de que um golpe militar lhe permita permanecer no poder para sempre. Ele gostaria de ser um Trump, a quem ama; ou ser um novo Putin, cujo mito de masculinidade ele inveja.

A palavra que Bolsonaro mais usou quando era deputado é “macho”. Chegou a afirmar que sua mulher o considera “o macho dos machos” e sem a menor vergonha revelou que ele é imbroxavel, ou seja, nunca falha sexualmente.

Se Bolsonaro de fato encontrar com Putin nos próximos dias, será interessante saber sobre o que eles vão conversar, já que o drama de uma possível guerra com a Ucrânia deixa o mundo no limite, mas eles parecem pouco se importar. Embora Bolsonaro tenha afirmado mais de uma vez que as armas com as quais ele diz que dorme ao seu lado foram seu melhor talismã. Ele as ama com tanta paixão que legislou que hoje todos os brasileiros podem possuir até seis armas para autodefesa. Um assunto sobre o qual, sem dúvida, ele poderá conversar livremente com o líder russo.

 

metropoles / (Transcrito do jornal El País)

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