 {"id":19216,"date":"2023-12-29T09:23:18","date_gmt":"2023-12-29T12:23:18","guid":{"rendered":"https:\/\/portalmidia.net\/?p=19216"},"modified":"2023-12-29T09:23:18","modified_gmt":"2023-12-29T12:23:18","slug":"reveillon-no-rio-comecou-com-a-umbanda-hoje-afastada-da-festa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/2023\/12\/29\/reveillon-no-rio-comecou-com-a-umbanda-hoje-afastada-da-festa\/","title":{"rendered":"R\u00e9veillon no Rio come\u00e7ou com a Umbanda, hoje afastada da festa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Um cortejo, realizado sempre no dia 29 de dezembro, j\u00e1 faz parte do calend\u00e1rio da cidade do Rio de Janeiro. Todos os anos, nesta data, cariocas adeptos de religi\u00f5es de matriz africana se re\u00fanem na tradicional Festa de Iemanj\u00e1 do Mercad\u00e3o de Madureira. De l\u00e1, por volta de 15h, seguem juntos para a Praia de Copacabana e se concentram na altura do Posto 4, onde carregam barquinhos com oferendas que s\u00e3o empurrados em dire\u00e7\u00e3o ao mar.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1574650&amp;o=node\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1574650&amp;o=node\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iemanj\u00e1 \u00e9 um orix\u00e1 feminino muito popular nas religi\u00f5es de matriz africana, como a Umbanda e o Candombl\u00e9. Considerada uma divindade protetora, ela \u00e9 m\u00e3e de v\u00e1rios outros orix\u00e1s. No litoral brasileiro, \u00e9 comum que as praias re\u00fanam pessoas para agradec\u00ea-la pelo ano que se passou, entregando-lhe oferendas. S\u00e3o lan\u00e7ados ao mar flores, velas, champanhe, manjar, mel\u00e3o, entre outras oferendas.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\"><img decoding=\"async\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/Y17PuveToTp_fxve7U3kwn-Y5II=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/_dsc9447.jpg?itok=WwHeKpLG\" alt=\"Dia de Iemanj\u00e1 \u00e9 comemorado na praia do Arpoador, na zona sul do Rio de Janeiro\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">Oferendas para Iemanj\u00e1 na praia do Arpoador, na zona sul do Rio de Janeiro &#8211;\u00a0<strong>Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Festa de Iemanj\u00e1 do Mercad\u00e3o de Madureira acontece desde 2002 e foi declarada Patrim\u00f4nio Cultural Carioca em 2011. \u00c9 atualmente o cortejo que mais movimenta religiosos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Praia de Copacabana. Antes, no entanto, era no dia 31 de dezembro que a maior parte das oferendas eram entregues ao mar. Pesquisadores apontam que adeptos da Umbanda foram os primeiros a adotar a pr\u00e1tica de se reunir no \u00faltimo dia do ano na praia mais visitada do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma hist\u00f3ria que envolve processos de marginaliza\u00e7\u00e3o e de resist\u00eancia, conforme observa o babalaw\u00f4 Ivanir dos Santos, interlocutor da Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa do Rio de Janeiro (CCIR) e doutor em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo ele, \u00e9 ineg\u00e1vel que a evolu\u00e7\u00e3o do r\u00e9veillon de Copacabana se deu a partir das pr\u00e1ticas dos adeptos de religi\u00f5es de matriz africana, embora tenha se afastado das origens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ivanir lembra que, at\u00e9 meados dos anos 1990, muitas pessoas se reuniam na praia no dia 31 de dezembro com bolo, frutas, doces, manjar e as oferendas a Iemanj\u00e1. &#8220;Os moradores mais velhos do Rio de Janeiro t\u00eam uma mem\u00f3ria afetiva com esse evento&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, essa movimenta\u00e7\u00e3o em Copacabana come\u00e7aria a adotar novos rumos quando o antigo Hotel Le M\u00e9ridien, hoje Hotel Hilton, fez uma queima de fogos de artif\u00edcio em 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O evento pirot\u00e9cnico se repetiria nos anos seguintes, dando gradativamente forma ao r\u00e9veillon que conhecemos hoje, como um dos maiores do mundo e seguramente o maior do Brasil. Aos poucos, a festa popular constru\u00edda por umbandistas ganhou outros contornos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foi passando a ser uma coisa dos hoteleiros. A queima de fogos e os megashows se tornaram o centro do evento para atrair turistas e lotar os hot\u00e9is. Tomou outro sentido. Ainda h\u00e1 resist\u00eancia. Mas tinham centenas de terreiros que se mobilizavam. Foram se afastando, fazendo a cerim\u00f4nia em outros locais ou em outras datas e n\u00e3o mais no dia 31&#8221;, explica.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">In\u00edcio de uma tradi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\"><img decoding=\"async\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/8KKtvoOnFOcJPLh8QjJzorTJY7s=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/trbr0260.jpg?itok=iA0xDdAd\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ), 28\/12\/2023 - O professor Luiz Ant\u00f4nio Simas, d\u00e1 uma aula p\u00fablica sobre como a umbanda ajudou a criar o R\u00e9veillon do Rio de Janeiro, na cal\u00e7ada do Bar Madrid, zona norte da cidade. Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">Professor Luiz Ant\u00f4nio Simas d\u00e1 aula p\u00fablica sobre como a Umbanda ajudou a criar o r\u00e9veillon do Rio de Janeiro &#8211; Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o entre a Umbanda e o r\u00e9veillon carioca \u00e9 um tema de pesquisa do historiador Luiz Antonio Simas. Na tarde desta quinta-feira (28), ele abordou a quest\u00e3o na cal\u00e7ada do Bar Madrid, na Tijuca, na zona norte da capital fluminense. Foi a \u00faltima das suas aulas p\u00fablicas, que ele organiza em locais variados como bares, pra\u00e7as e livrarias, e que sempre atrai um grande n\u00famero de interessados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simas chamou aten\u00e7\u00e3o para detalhes da hist\u00f3ria do r\u00e9veillon de Copacabana, explorando um tema que ele j\u00e1 havia abordado no livro\u00a0<em>Umbandas: uma hist\u00f3ria do Brasil<\/em>, lan\u00e7ado em 2021. Na obra, ele destaca o importante papel de Tata Tancredo Silva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;[Tata foi] O grande estimulador da ocupa\u00e7\u00e3o das praias do Rio de Janeiro pelos umbandistas, na noite do dia 31 de dezembro. Para ele, a realiza\u00e7\u00e3o de festas p\u00fablicas ajudava a divulgar a umbanda, fortalecia as redes de prote\u00e7\u00e3o social entre os seus membros e criava um ambiente socialmente mais favor\u00e1vel para os praticantes dos cultos afroind\u00edgenas&#8221;, constata na obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tata \u00e9 um t\u00edtulo de grande sacerdote em cultos de origem angolocongolesas. Tata Tancredo Silva era um praticante da Umbanda Omolok\u00f4, a qual se colocava na linha de frente contra movimentos de embranquecimento da Umbanda. Tamb\u00e9m era sambista, tendo sido fundador da escola pioneira Deixa Falar, do Est\u00e1cio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1950, ele fundou a Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita de Umbanda. Posteriormente tamb\u00e9m criou a Confedera\u00e7\u00e3o Umbandista do Brasil, usando o dinheiro que tinha ganhado com os direitos autorais da m\u00fasica\u00a0<em>General da Banda<\/em>, composi\u00e7\u00e3o que escreveu em parceria com S\u00e1tiro de Melo e Jos\u00e9 Alcides e que fez grande sucesso na voz do sambista Blecaute.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reuni\u00e3o na Praia de Copacabana na noite do dia 31 de dezembro, estimulada por Tata Tancredo Silva, no in\u00edcio dos anos 1950, acabou se tornando uma tradi\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro. As pessoas passaram a ir \u00e0 praia vestidas de branco participar da cerim\u00f4nia, entregar oferendas a Iemanj\u00e1, pular sete ondinhas e fazer seus pedidos de prosperidade.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Inclus\u00e3o e exclus\u00e3o<\/h2>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\"><img decoding=\"async\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/Ez8st1h54viEzmJ1wjj0WZxjMjE=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/_dsc9498.jpg?itok=WxCSRmF9\" alt=\"Dia de Iemanj\u00e1 \u00e9 comemorado na praia do Arpoador, na zona sul do Rio de Janeiro\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">Dia de Iemanj\u00e1 \u00e9 comemorado na praia do Arpoador, na zona sul do Rio de Janeiro &#8211;\u00a0<strong>Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas pr\u00e1ticas se estenderam tamb\u00e9m por outros bairros do Rio de Janeiro. Tornou-se tradicional nas praias de Ramos, de Botafogo, do Flamengo e na Ilha do Governador, entre outros locais. Expandiu-se ainda pelo interior fluminense e chegou a outros estados. Em Belo Horizonte, por exemplo, a entrega de oferendas \u00e0 Iemanj\u00e1 na Lagoa da Pampulha foi estimulada pelo pr\u00f3prio Tata Tancredo Silva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses eventos popularizaram a umbanda, fortalecendo-a diante da persegui\u00e7\u00e3o. Ainda assim, Simas destaca em seu livro um editorial do jornal\u00a0<em>O Globo<\/em>\u00a0em uma edi\u00e7\u00e3o de 1952. No texto, a presen\u00e7a dos umbandistas em Copacabana \u00e9 vista com muitas ressalvas. Argumentou-se at\u00e9 mesmo que as velas acesas traziam risco de inc\u00eandio na praia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de enfrentar forte preconceito, conforme sustenta Simas, os umbandistas foram os respons\u00e1veis por impulsionar o h\u00e1bito carioca de comemorar a virada de ano na praia, o que se tornou uma tradi\u00e7\u00e3o mundialmente conhecida e acabou influenciando diversas cidades. Ele tamb\u00e9m destaca que a festa n\u00e3o exclu\u00eda ningu\u00e9m e abra\u00e7ava religiosos de outras cren\u00e7as, muitos dos quais n\u00e3o queriam ficar de fora dos rituais em busca de prosperidade no ano novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, no r\u00e9veillon em seu formato atual, peda\u00e7os de areia e da cal\u00e7ada s\u00e3o cercados para explora\u00e7\u00e3o comercial, e os tambores da Umbanda n\u00e3o t\u00eam mais espa\u00e7o, pois n\u00e3o podem competir com as potentes caixas de sons que transmitem os shows de uma variedade de ritmos como rock, ax\u00e9, sertanejo, m\u00fasica eletr\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 comum ouvir declara\u00e7\u00f5es, inclusive participantes ass\u00edduos do cortejo, que a Festa de Iemanj\u00e1 do Mercad\u00e3o de Madureira acontece no dia 29 de dezembro para evitar a grande aglomera\u00e7\u00e3o na Praia de Copacabana no dia 31. Mas o professor Simas, como o babalaw\u00f4 Ivanir do Santos, deixa claro que \u00e9 preciso um olhar mais minucioso sobre essa quest\u00e3o, que segundo ele, n\u00e3o foi uma mera quest\u00e3o de escolha.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\"><img decoding=\"async\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/y8d_bHNS6Evi0VKcDP8B0AKpapU=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/_dsc9356.jpg?itok=vDAaW9hl\" alt=\"Dia de Iemanj\u00e1 \u00e9 comemorado na praia do Arpoador, na zona sul do Rio de Janeiro\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">Dia de Iemanj\u00e1 \u00e9 comemorado na praia do Arpoador, na zona sul do Rio de Janeiro &#8211;\u00a0<strong>Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua aula p\u00fablica, Simas avaliou que a transforma\u00e7\u00e3o do r\u00e9veillon em um evento espetacularizado e de grandes propor\u00e7\u00f5es provocou um afastamento dos umbandistas, em linha com os esfor\u00e7os hist\u00f3ricos de fortalecimento da imagem do Rio de Janeiro como &#8220;Cidade Maravilhosa&#8221;. &#8220;A ideia de Cidade Maravilhosa foi constru\u00edda atrav\u00e9s de um apagamento do povo n\u00e3o branco, de um apagamento das religi\u00f5es de matriz africana, de um apagamento da zona norte e da zona oeste&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">agenciabrasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um cortejo, realizado sempre no dia 29 de dezembro, j\u00e1 faz parte do calend\u00e1rio da cidade do Rio de Janeiro. 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