 {"id":21887,"date":"2024-02-01T08:40:51","date_gmt":"2024-02-01T11:40:51","guid":{"rendered":"https:\/\/portalmidia.net\/?p=21887"},"modified":"2024-02-01T08:40:51","modified_gmt":"2024-02-01T11:40:51","slug":"edificio-joelma-50-anos-depois-marcas-do-incendio-permanecem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/2024\/02\/01\/edificio-joelma-50-anos-depois-marcas-do-incendio-permanecem\/","title":{"rendered":"Edif\u00edcio Joelma: 50 anos depois, marcas do inc\u00eandio permanecem"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No dia 1\u00ba de fevereiro de 1974, Hiroshi Shimuta, 80 anos, chegou bem cedo ao 22\u00ba\u00a0andar do\u00a0Edif\u00edcio Joelma, no centro da capital paulista, onde trabalhava. O expediente come\u00e7ava \u00e0s 9h da manh\u00e3, mas ele decidiu chegar antes das 8h porque\u00a0queria ler os jornais antes de come\u00e7ar a jornada, para se atualizar sobre o que estava acontecendo no Brasil e no mundo.\u00a0<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1578333&amp;o=node\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1578333&amp;o=node\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabara de ser pai de g\u00eameos. Uma menina e um menino haviam nascido no dia 18 de janeiro e ele sequer os havia segurado no colo porque nasceram prematuros e ainda permaneciam no hospital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu estava na minha sala lendo meu jornal e ent\u00e3o recebi um telefonema da portaria me informando que o pr\u00e9dio estava pegando fogo\u201d, relembra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era por volta das 8h45 da manh\u00e3,\u00a0quando o Edif\u00edcio Joelma come\u00e7ou a pegar\u00a0fogo. Naquele dia, S\u00e3o Paulo enfrentava muitos ventos, fator que contribuiu para a propaga\u00e7\u00e3o das chamas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O inc\u00eandio no Edif\u00edcio Joelma foi uma das maiores trag\u00e9dias ocorridas no Brasil, provocando a morte de 181 pessoas e deixando mais de 300 feridas. Embora o pa\u00eds nunca tenha se preocupado em homenagear esses mortos ou transformar essa trag\u00e9dia em um memorial, as marcas e lembran\u00e7as do\u00a0inc\u00eandio permanecem vivas em muitas pessoas.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Inc\u00eandio<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fogo teve in\u00edcio\u00a0no 12\u00ba\u00a0andar, ocupado pelo Banco Crefisul, resultado de um curto-circuito no sistema de refrigera\u00e7\u00e3o. O\u00a0vento\u00a0e a falta de seguran\u00e7a do pr\u00e9dio logo fizeram as chamas\u00a0se alastrarem, levando \u00e0 morte centenas de pessoas. O n\u00famero de \u00f3bitos registrados variou ao longo dos anos, mas pesquisa feita pelo jornalista e escritor Adriano Dolph, autor do livro Fevereiro em Chamas, documenta\u00a0que\u00a0181 pessoas morreram\u00a0 no inc\u00eandio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBusquei documentos oficiais do IML (Instituto M\u00e9dico Legal) e do Cemit\u00e9rio do Vila Alpina. Busquei tamb\u00e9m nos processos criminais, em documentos do Corpo de Bombeiros, no Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo e em jornais da \u00e9poca\u201d, relembra. \u201cO que tenho s\u00e3o 181 laudos necrosc\u00f3picos\u201d, atesta\u00a0o jornalista.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\"><img decoding=\"async\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"TV Brasil\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/la--kXWLwdsoRwGrS4_TICiQgkI=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/06_1.jpg?itok=Mt44GKpp\" alt=\"CAMINHOS DA REPORTAGEM: Cinzas de fevereiro: 50 anos do inc\u00eandio do Edif\u00edcio Joelma. Foto: TV Brasil\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">Adriano Dolph, autor de\u00a0<em>Fevereiro em chamas<\/em>\u00a0&#8211; Divulga\u00e7\u00e3o\/TV Brasil<\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Torres<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inaugurado em 1971, o Edif\u00edcio Joelma &#8211; atualmente chamado de Edif\u00edcio Pra\u00e7a da Bandeira &#8211; \u00e9 uma obra do arquiteto Salvador Candia. Constru\u00eddo em concreto armado,\u00a0\u00e9 composto por duas torres de 25 andares: uma virada para a Avenida Nove de Julho e outra para a Rua Santo Ant\u00f4nio, no centro da capital paulista. Entre elas, uma \u00fanica escada central.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEle tem caracter\u00edsticas arquitet\u00f4nicas muito interessantes. Ele tem sete andares de estacionamento mas, pela altura desses andares, comp\u00f5em uma altura de aproximadamente dez andares. Por isso ele n\u00e3o tem marcados tr\u00eas andares. Ele pula do s\u00e9timo para o d\u00e9cimo primeiro andar\u201d, explicou Dolph.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do 11\u00ba\u00a0ao 25\u00ba\u00a0andar, o pr\u00e9dio conta com salas de escrit\u00f3rios que, naquela \u00e9poca, estavam sendo ocupadas pelo Crefisul.\u00a0\u201cMuitos estavam ali em busca do primeiro emprego. Sexta-feira era o dia de entrevistas de emprego no banco. O livro Fevereiro em Chamas traz relatos de funcion\u00e1rios que estavam levando, por exemplo, uma irm\u00e3 para entrevista de emprego [naquele dia]\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As salas eram repartidas por divis\u00f3rias e tinham carpetes, m\u00f3veis de madeira e cortinas de tecido, que contribu\u00edram para que o fogo se alastrasse rapidamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois anos antes, o centro da cidade de S\u00e3o Paulo j\u00e1 havia enfrentado uma grande trag\u00e9dia. Um inc\u00eandio no Edif\u00edcio Andraus, localizado pr\u00f3ximo da Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, havia deixado 16 mortos e entre 300 ou 400 feridos.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cTodo mundo imaginou que a trag\u00e9dia do Andraus seria aquela \u00e9pica, aquela que iria marcar gera\u00e7\u00f5es. Mas veio uma ainda pior: o Joelma fez muito mais pessoas perderem a vida\u201d, disse o escritor.<\/p><\/blockquote>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Hiroshi Shimuta<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobrevivente da trag\u00e9dia,\u00a0o presidente da Nicom Com\u00e9rcio e Material de Constru\u00e7\u00e3o, Hiroshi Shimuta, come\u00e7ou a trabalhar no Citibank no in\u00edcio dos anos 70, empresa pela qual dedicou 20 anos de sua vida. Em 1972, o Citibank adquiriu participa\u00e7\u00e3o no Crefisul para complementar seus neg\u00f3cios. Com isso, o departamento do banco em que ele trabalhava se dividiu: parte continuou na Avenida Ipiranga [onde estava o Citibank] e parte se mudou para o Edif\u00edcio Joelma, que tinha acabado de ser todo alugado para o Crefisul.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\"><img decoding=\"async\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/6n6C1ZLN1iy63Rit1WZ6_aoW-tM=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/edificio_joelma_06.jpg?itok=SeVk8neT\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP) 19\/01\/2023 - Empres\u00e1rio Hiroshi Shimuta sobrevivente do inc\u00eandio do Edif\u00edcio Joelma.\nFoto: Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">Empres\u00e1rio Hiroshi Shimuta sobrevivente do inc\u00eandio do Edif\u00edcio Joelma.\u00a0&#8211;\u00a0<strong>Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Shimuta alternava entre os pr\u00e9dios a cada semana. Na fat\u00eddica sexta-feira de 1974 ele estava no Joelma. \u201cEu tentei sair [da minha sala]. Mas a fuma\u00e7a era muito forte. Pensei: \u2018vou morrer sufocado\u2019. Decidi arrancar todas as cortinas. O fogo come\u00e7ava nas cortinas, que eram feitas de juta. As janelas ficavam abertas e a cortina ficava balan\u00e7ando para fora. Ent\u00e3o, pegava fogo embaixo e ia impulsionando o fogo para cima\u201d, contou o empres\u00e1rio, que estava com outras seis pessoas na sala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob lideran\u00e7a dele, o grupo\u00a0saiu\u00a0da sala em dire\u00e7\u00e3o a um pequeno banheiro do andar. \u201cO banheiro n\u00e3o pega fogo. Ent\u00e3o, vamos ficar aqui, vamos nos acomodar por aqui\u201d, pensaram. Eles ficaram por ali um tempo, mas a fuma\u00e7a n\u00e3o tardou a chegar. Foi ent\u00e3o que decidiram deixar o banheiro e passar para um pequeno parapeito do lado de fora, onde permaneceram at\u00e9 que pudessem ser resgatados pelos bombeiros. O que tardou cerca de cinco horas para acontecer.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cCom o fogo subindo, havia quem se jogava l\u00e1 de cima [de andares superiores]. O cen\u00e1rio era simplesmente dram\u00e1tico. Eu tentava acalmar o pessoal. Falava para n\u00e3o fazerem besteira porque daqui a pouco o fogo iria se apagar\u201d, falou. \u201cA gente orava muito e pedia para que Deus nos salvasse\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de ser resgatado, Shimuta pensava nos filhos rec\u00e9m-nascidos. \u201cEu n\u00e3o posso morrer. Tenho que viver de qualquer forma. Coloquei duas crian\u00e7as no mundo e essas crian\u00e7as n\u00e3o v\u00e3o viver sem o pai. Sou respons\u00e1vel, preciso estar vivo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resgate foi complicado. A escada magirus do Corpo de Bombeiros s\u00f3 alcan\u00e7ava at\u00e9 o 14\u00ba\u00a0andar. Eles estavam no 22\u00ba. Ent\u00e3o, para fazer esse resgaste, os bombeiros precisaram subir ao topo da magirus e depois usar uma escada de alum\u00ednio, de forma complementar, com a qual iam escalando andar a andar. \u201cEles iam se revezando at\u00e9 chegar ao nosso andar. Fui o \u00faltimo a ser resgatado. Acho que levou mais ou menos uma hora nesse processo porque tinha que descer at\u00e9 o 12\u00ba\u00a0andar [onde estava a magirus]. A\u00ed ele ia descendo at\u00e9 chegar l\u00e1 embaixo. Depois, subia para resgatar a segunda pessoa. Mas a essa altura do campeonato. est\u00e1vamos felizes da vida, pois v\u00edamos nossos colegas saindo da escada e caminhando l\u00e1 embaixo. Isso foi dando um al\u00edvio na gente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando finalmente chegou ao asfalto, Shimuta s\u00f3\u00a0agradeceu. \u201cA primeira coisa que fiz foi olhar para cima e agradecer a Deus por ter devolvido a minha vida. Depois agachei e beijei o ch\u00e3o\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela noite, ele n\u00e3o conseguiu dormir. \u201cEstava cansado fisicamente, mas quando fechava os olhos, dava a impress\u00e3o que eu estava sendo lan\u00e7ado no ar, que estava flutuando. Aquela sensa\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o esque\u00e7o nunca. Parecia que Deus estava querendo me levar\u201d.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Mauro Ligere Filho<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O microempres\u00e1rio Mauro Ligere Filho, 73 anos, \u00e9 outro sobrevivente do Joelma. Ele tamb\u00e9m trabalhava no Citibank, banco pelo qual foi funcion\u00e1rio por 22 anos. \u201cN\u00f3s est\u00e1vamos [no Joelma] justamente vendo o que a financeira Citibank tinha e a financeira Crefisul tinha para podermos adequar os padr\u00f5es. Os trabalhos tinham rec\u00e9m-come\u00e7ado. Acho que n\u00e3o tinha um m\u00eas\u201d.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\"><img decoding=\"async\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"TV Brasil\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/VDfkiK50YCXdgSAbHInS_B2VEGI=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/02_9.jpg?itok=D6NQ2oI_\" alt=\"CAMINHOS DA REPORTAGEM: Cinzas de fevereiro: 50 anos do inc\u00eandio do Edif\u00edcio Joelma. Foto: TV Brasil\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">Mauro Ligere esperou com um grupo mais de cinco horas pelo resgate. Divulga\u00e7\u00e3o\/TV Brasil<\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mauro, estava no mesmo andar de Shimuta, embora em salas diferentes. \u201cEra uma sexta-feira garoenta. Tinha uma reuni\u00e3o e eu estava no pr\u00e9dio antes das 9h. Eu e meu diretor est\u00e1vamos preparando uma apresenta\u00e7\u00e3o. Eu tinha rec\u00e9m-ganhado uma caneta Parker 51 do meu pai\u201d, conta.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNa hora exata do inc\u00eandio, eu estava na sala do meu diretor, no 22\u00ba\u00a0andar. Nessa sala tem um banheiro privativo. Est\u00e1vamos eu, ele e uma secret\u00e1ria preparando a apresenta\u00e7\u00e3o, quando escutamos uma barulhada de vidros explodindo. Meu chefe pegou um extintor e saiu correndo. A secret\u00e1ria foi atr\u00e1s dele. Eu estava correndo atr\u00e1s deles, mas lembrei que tinha esquecido minha caneta [que havia ganhado do pai] e voltei. Peguei a caneta, minha mala e meu palet\u00f3. Quando fui sair de novo, alguns segundos depois, o hall dos elevadores e a escada j\u00e1 haviam virado uma chamin\u00e9. Tentei subir ou descer pela escada, mas n\u00e3o consegui e acabei voltando para a sala onde estava. Nesse meio tempo, seis pessoas apareceram por ali. O Hiroshi era uma delas\u201d, contou.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">De in\u00edcio eles tentaram apagar o inc\u00eandio naquele andar. \u201cTentamos pegar uma mangueira de inc\u00eandio para apagar o fogo. Esticamos, conectamos no registro, mas n\u00e3o tinha \u00e1gua. O registro central do sistema de abastecimento de inc\u00eandio estava fechado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi ent\u00e3o que tiveram a ideia de se confinar no banheiro. Mas n\u00e3o conseguiram ficar muito tempo por ali por causa da fuma\u00e7a. A solu\u00e7\u00e3o acabou sendo pular para o parapeito. \u201cEu abri a janela [do banheiro] e vi que tinha um parapeito. E da\u00ed consegui respirar porque ali \u00e9 um vale [Vale do Anhangaba\u00fa] e os ventos ora\u00a0vinha daqui ora dali. A\u00ed eu pulei [a janela do banheiro] e as outras pessoas pularam tamb\u00e9m. [O parapeito] era pequeno e n\u00e3o cabiam sete pessoas. Ent\u00e3o ficamos um em cima do outro. E uma pessoa em cima de mim. Ficamos ali por horas. Se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos pulado [a janela do banheiro] ter\u00edamos morrido asfixiados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ligere foi um dos primeiros a ser resgatado daquele parapeito. Seu salvador foi o bombeiro Jo\u00e3o Sim\u00e3o de Souza. O nome do bombeiro ele s\u00f3 foi descobrir ao dar entrevista para um programa de TV, no ano passado. \u201cEle agora \u00e9 um amigo que eu tenho, que eu ganhei, e que s\u00f3 fui encontrar ap\u00f3s 49 anos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daquele fat\u00eddico inc\u00eandio, Ligere Filho saiu apenas com uma orelha queimada. \u201cS\u00f3 a orelha que queimou. Eu estava praticamente intacto, n\u00e3o tinha nada al\u00e9m daquela ard\u00eancia no olho e daquela secura na boca\u201d. E na segunda-feira ap\u00f3s a trag\u00e9dia ele j\u00e1 tinha voltado a trabalhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas as marcas n\u00e3o foram s\u00f3 f\u00edsicas. Anos depois ele desenvolveu uma s\u00edndrome do p\u00e2nico. \u201cImagino que tenha sido consequ\u00eancia disso a\u00ed porque eu sempre tinha sido tranquilo\u201d, falou.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Responsabiliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">As imagens daquele 1\u00ba\u00a0de fevereiro continuam vivas na mem\u00f3ria desses sobreviventes. Ligere Filho, por exemplo, n\u00e3o somente lembra detalhes sobre o que aconteceu naquele dia, como tamb\u00e9m guarda recortes de reportagens sobre o assunto que foram publicadas em jornais e revistas. Inclusive das muitas entrevistas que deu. \u201cComo eu tinha vivido aquilo, tudo que tinha [sobre o Joelma] eu comprava e guardava. At\u00e9 que eu resolvi fazer um livro com v\u00e1rias manchetes da Veja, Estad\u00e3o, Folha para contar para os meus netos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada um\u00a0teve que conviver com as recorda\u00e7\u00f5es \u00e0 sua maneira, j\u00e1 que, segundo relatos de sobreviventes, nem o condom\u00ednio, nem a prefeitura e nem o Crefisul\u00a0disponibilizaram psic\u00f3logo para as v\u00edtimas ap\u00f3s o inc\u00eandio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o escritor Adriano Dolph,\u00a0houve uma batalha pelo reconhecimento de que o Crefisul teve responsabilidade no inc\u00eandio. O banco chegou a indenizar alguns por acidente de trabalho, e entendia que era o suficiente, e que\u00a0n\u00e3o era devida indeniza\u00e7\u00e3o \u00e0s fam\u00edlias pelos mortos. &#8220;Foi uma batalha de cinco anos que chegou ao STF (Supremo Tribunal Federal) e que o pagamento s\u00f3 ocorreu ap\u00f3s dez anos, com idas e vindas, embargos declarat\u00f3rios&#8221;, explica o autor. Dolph ressalta ainda que os valores pagos foram \u00ednfimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs pessoas s\u00f3 come\u00e7aram a receber, de fato, a indeniza\u00e7\u00e3o ap\u00f3s um acordo com o grupo Crefisul, que n\u00e3o era mais o Crefisul. Elas s\u00f3 come\u00e7aram a receber indeniza\u00e7\u00e3o em 1986\u201d, relembrou\u00a0Adriano Dolph.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, nem todo\u00a0foram indenizados. \u201c[A indeniza\u00e7\u00e3o] recebi de Deus, que foi a vida\u201d, afirmou Ligere Filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo lado criminal, cinco pessoas foram responsabilizadas pelo inc\u00eandio no Joelma. Em abril de 1975, Kiril Petrov, engenheiro respons\u00e1vel pelas instala\u00e7\u00f5es gerais, foi condenado a tr\u00eas anos de pris\u00e3o. J\u00e1 os eletricistas Sebasti\u00e3o da Silva Filho, Alvino Fernandes e Gilberto Ara\u00fajo e o propriet\u00e1rio da empresa Termoclima, Walfried Georg, foram condenados a dois anos de pris\u00e3o. Eles recorreram da senten\u00e7a e ent\u00e3o houve diminui\u00e7\u00e3o das penas. \u201cDe fato, eles nunca cumpriram a pena de cadeia. Todos permaneceram livres\u201d, disse o autor de Fevereiro em Chamas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a empresa Crefisul jamais foi julgada. \u201cDa diretoria do grupo Crefisul ningu\u00e9m foi tido como r\u00e9u. Ningu\u00e9m [do banco] foi encarado pela promotoria ou pelo delegado que cuidou do caso como respons\u00e1vel\u201d, acrescentou o escritor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">agenciabrasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 1\u00ba de fevereiro de 1974, Hiroshi Shimuta, 80 anos, chegou bem cedo ao 22\u00ba\u00a0andar do\u00a0Edif\u00edcio Joelma, no centro da capital paulista, onde trabalhava. O expediente come\u00e7ava \u00e0s 9h da manh\u00e3, mas ele decidiu chegar antes das 8h porque\u00a0queria ler os jornais antes de come\u00e7ar a jornada, para se atualizar sobre o que estava<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21892,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","footnotes":""},"categories":[7,13],"tags":[],"class_list":["post-21887","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21887"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21887\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21895,"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21887\/revisions\/21895"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21892"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}