 {"id":31922,"date":"2024-05-27T07:27:17","date_gmt":"2024-05-27T10:27:17","guid":{"rendered":"https:\/\/portalmidia.net\/?p=31922"},"modified":"2024-05-27T07:27:17","modified_gmt":"2024-05-27T10:27:17","slug":"construcoes-indevidas-agravam-problema-de-erosao-costeira-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/2024\/05\/27\/construcoes-indevidas-agravam-problema-de-erosao-costeira-no-brasil\/","title":{"rendered":"Constru\u00e7\u00f5es indevidas agravam problema de eros\u00e3o costeira no Brasil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A eros\u00e3o da costa do Rio de Janeiro \u00e9 um problema antigo, que se agrava em momentos de grandes ressacas, como ocorreu no \u00faltimo fim de semana em Maca\u00e9, no norte fluminense. As ondas que atingiram quase 3 metros (m) provocaram estragos na Praia Barra de Maca\u00e9, no bairro Fronteira, zona norte da cidade, e resultaram na interdi\u00e7\u00e3o de 74 im\u00f3veis, sendo que em sete houve\u00a0desabamentos parciais ou totais. Tamb\u00e9m foram registradas queda de cinco postes e perda da pista da orla. Al\u00e9m\u00a0disso,\u00a0quatro pessoas ficaram desabrigadas e\u00a0180, desalojadas.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1597067&amp;o=node\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1597067&amp;o=node\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ge\u00f3grafo marinho da Universidade Federal Fluminense (UFF)\u00a0Eduardo Bulh\u00f5es explicou\u00a0que a praia \u00e9 muito pr\u00f3xima da foz do Rio Maca\u00e9 e tem essa instabilidade causada, entre outros fatores, pela ocupa\u00e7\u00e3o dos terrenos pr\u00f3ximos \u00e0 linha de \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUma quest\u00e3o relevante de o poder p\u00fablico entender \u00e9 que n\u00e3o existem medidas definitivas para acabar com o problema da eros\u00e3o, uma vez que a gente trabalha basicamente nos sintomas, nas consequ\u00eancias e n\u00e3o necessariamente nas causas dela. Por exemplo, uma ressaca muito forte a gente n\u00e3o tem como evitar. A gente tem como preparar o litoral para conseguir lidar melhor com esses impactos. O primeiro passo \u00e9 entender que a gente precisa de medidas para o controle do problema e n\u00e3o para solu\u00e7\u00f5es definitivas dele como muitos gestores querem vender a ideia\u201d, defendeu em entrevista \u00e0 .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bulh\u00f5es \u00e9 um dos integrantes do grupo de trabalho que vai realizar o\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2024-05\/estudo-analisara-erosao-costeira-e-ressacas-em-municipio-fluminense\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estudo t\u00e9cnico e ambiental<\/a>\u00a0acertado pela prefeitura de Maca\u00e9, no norte fluminense, com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). \u201cEles [da prefeitura] est\u00e3o querendo se capacitar para entender melhor como ocorrem esses eventos, esses processos. Sabem que tem risco, mas n\u00e3o sabem por que\u201d, completou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo ser\u00e1 realizado pelo Instituto Polit\u00e9cnico e o pelo Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (Nupem)\u00a0da UFRJ, sob a coordena\u00e7\u00e3o do decano do Centro Multidisciplinar da entidade de ensino no munic\u00edpio, professor Irnak Barbosa. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 analisar o processo de eros\u00e3o costeira que h\u00e1 tempos atinge o munic\u00edpio. O trabalho ter\u00e1 ainda o acompanhamento do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ).<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Atafona<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Atafona, distrito da cidade de S\u00e3o Jo\u00e3o da Barra, tamb\u00e9m no norte fluminense, a perda de constru\u00e7\u00f5es e avan\u00e7o da faixa de areia t\u00eam evolu\u00eddo ao longo dos anos. O problema n\u00e3o para por a\u00ed. \u201cEm Atafona j\u00e1 foram mais de 500 constru\u00e7\u00f5es destru\u00eddas. Tem impacto tamb\u00e9m em Rio das Ostras, em Campos dos Goytacazes. Perto da capital tem impactos significativos em Maric\u00e1. A Praia da Macumba, na cidade do Rio de Janeiro, \u00e9 um dos lugares bem vulner\u00e1veis e volta e meia tem que reconstruir a orla. A eros\u00e3o costeira no Brasil ocorre em v\u00e1rios munic\u00edpios. Tenho trabalhado neste tema h\u00e1 muitos anos\u201d, destacou\u00a0Bulh\u00f5es\u00a0citando locais atingidos.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Estudo<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ge\u00f3grafo estimou que, at\u00e9 esta semana, o grupo que vai realizar o estudo ter\u00e1 os nomes publicados no\u00a0<em>Di\u00e1rio Oficial do Munic\u00edpio<\/em>, o que \u00e9 um tr\u00e2mite para iniciar o trabalho. \u201cUma vez institu\u00eddo, a gente vai trabalhar para solu\u00e7\u00f5es de controle da eros\u00e3o\u201d, pontuou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir disso, disse o especialista, devem ser analisadas medidas estruturais como recomposi\u00e7\u00e3o da praia e da vegeta\u00e7\u00e3o de restinga. \u201cAcho que essa \u00e9 mais moderna para lidar com o problema. A gente pressup\u00f5e que as praias, a vegeta\u00e7\u00e3o de restinga e as pequenas dunas frontais agem como defesa, de fato, do litoral. Isso \u00e9 o entendimento da literatura internacional sobre isso, recompor o ecossistema e utiliz\u00e1-lo como uma barreira ao ataque das ondas e tempestades. Medidas estruturais podem ser obras e tamb\u00e9m composi\u00e7\u00e3o dos ecossistemas litor\u00e2neos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bulh\u00f5es destacou ainda algumas medidas n\u00e3o estruturais. Uma delas \u00e9 a chamada retra\u00e7\u00e3o planejada, quando se faz a remo\u00e7\u00e3o de um conjunto de constru\u00e7\u00f5es instalado em local inadequado e\u00a0que, por isso, n\u00e3o pode permanecer naquele\u00a0lugar.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPor exemplo, nessas casas que ca\u00edram, a gente n\u00e3o pode permitir que haja uma reconstru\u00e7\u00e3o de resid\u00eancias no mesmo local. Ent\u00e3o, a retra\u00e7\u00e3o traz a ideia de que em alguns casos a gente precisa recuar as nossas estruturas para que consigamos recompor o ecossistema e que ele funcione como uma barreira natural\u201d, explicou o ge\u00f3grafo.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bulh\u00f5es acrescentou que est\u00e3o ainda dentro desse tipo de medidas o sistema de previs\u00e3o e alerta e o que ele chamou de alfabetiza\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, que seria o convencimento da sociedade de que algumas \u00e1reas do litoral precisam ser desocupadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2018, o ge\u00f3grafo fez parte de um grupo que produziu o livro\u00a0<em>Panorama da Evas\u00e3o Costeira no Brasil<\/em>, composto por 17 cap\u00edtulos, um para cada estado que passa por esse tipo de problema. Ele participou do que trata do Rio de Janeiro, que compreende a faixa desde S\u00e3o Francisco de Itabapoana, no norte do estado, na divisa com o Esp\u00edrito Santo, at\u00e9 Paraty, na divisa com S\u00e3o Paulo. \u201cA gente tem muitas \u00e1reas em eros\u00e3o, sendo a mais grave a de Atafona, mas temos em Rio das Ostras, Cabo Frio, Campos, Maca\u00e9, cidade do Rio de Janeiro, Angra dos Reis\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bulh\u00f5es lembrou que, na Praia da Macumba, na zona oeste da capital, em 2005 foi feito um projeto na orla com cal\u00e7ad\u00e3o e instala\u00e7\u00e3o de quiosques e de ciclovia. \u201cDe l\u00e1 para c\u00e1, aquele lugar j\u00e1 sofreu com ressacas mais de seis vezes. A gente, enquanto sociedade, construiu em lugar errado. O principal problema em praias urbanas nas grandes cidades \u00e9 o avan\u00e7o da urbaniza\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao mar. Isso \u00e9 um problema grave, porque na verdade essas estruturas n\u00e3o foram feitas para conter o avan\u00e7o do mar, mas para dar um ar mais urbanizado para a orla\u00a0e acabam sendo sujeitas a esses impactos\u201d, afirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro equ\u00edvoco, na avalia\u00e7\u00e3o do ge\u00f3grafo, era\u00a0o projeto da prefeitura do Rio que pretendia instalar mantas de concreto sob a faixa de areia que se estende dos postos 3 ao 8, da Praia da Barra da Tijuca, na zona oeste. Depois de cr\u00edticas de especialistas, o MPRJ determinou a paralisa\u00e7\u00e3o da obra, e o munic\u00edpio interrompeu os trabalhos. \u201cA gente achou que aquilo estava muito errado, porque a principal forma de combater a eros\u00e3o \u00e9 dar espa\u00e7o para a praia, se restabelecer a faixa de areia e a vegeta\u00e7\u00e3o de restinga. Esses ecossistemas t\u00eam naturalmente essa fun\u00e7\u00e3o de defesa do litoral.\u201d<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">For\u00e7a da ressaca<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ocean\u00f3grafo Marcelo Sperle Dias, professor da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), alertou que n\u00e3o somente a altura das ondas determina a for\u00e7a da ressaca. Segundo ele, o per\u00edodo da onda, que \u00e9 o tempo que ela leva para estourar na praia, pode causar grandes estragos. Esse foi o caso de Maca\u00e9.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEspecificamente essa ressaca teve um per\u00edodo de ondas muito largo. A m\u00e9dia do per\u00edodo de ondas no estado do Rio de Janeiro \u00e9 na faixa de oito\u00a0a dez\u00a0segundos. Nessa ressaca, como outras que j\u00e1 aconteceram, o per\u00edodo foi de 16 a 18 segundos. Em termos de fluido da \u00e1gua, isso funciona quase como um tsunami. Quanto maior o comprimento do per\u00edodo de ondas, mais ela invade o litoral\u201d, esclareceu Dias em entrevista \u00e0\u00a0<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.<\/p><\/blockquote>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Alertas<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor contou que os avisos da Marinha sobre a ocorr\u00eancia de ressacas costumam trazer a previs\u00e3o de altura das ondas e ainda os per\u00edodos que v\u00e3o levar para estourar. E isso \u00e9 importante para se fazer um planejamento de cuidados. Segundo o ocean\u00f3grafo, normalmente os alertas t\u00eam quatro informa\u00e7\u00f5es principais: trecho do litoral que vai ser mais atingido, qual \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o das ondas (se est\u00e3o vindo do\u00a0sul, sudeste), a altura\u00a0da onda e o per\u00edodo. Diante disso, ele sugeriu que as prefeituras tenham equipes capazes de fazer essas observa\u00e7\u00f5es para propor medidas que evitem danos maiores.\u00a0\u201cN\u00f3s precisamos que a Defesa Civil das prefeituras tenha profissionais capacitados acostumados a trabalhar com este tipo de problema.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dias participa desde 1997 do grupo de especialistas do projeto Erocosta, que trata da eros\u00e3o costeira e monitora v\u00e1rios pontos chamados de<em>\u00a0hotspots<\/em>\u00a0do litoral fluminense, entre eles, esse trecho de Maca\u00e9 e de Atafona que, segundo ele, est\u00e1 cada vez mais cr\u00edtico. \u201cO<em>\u00a0hotspot<\/em>\u00a0\u00e9 uma \u00e1rea do litoral onde v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 da ressaca e da energia das ondas, v\u00e1rias outras for\u00e7antes, que a gente chama, condicionam que aquele ponto tenha eventualmente impactos associados \u00e0 quest\u00e3o de eros\u00e3o costeira\u201d, explicou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor salientou que o impacto das ressacas nesses locais vai depender tamb\u00e9m da orienta\u00e7\u00e3o do litoral, definida pela dire\u00e7\u00e3o de partida das ondas. \u201cDependendo de onde est\u00e3o vindo as ondas, um ou outro desses vai ter maior impacto. N\u00e3o acontece em todos ao mesmo tempo, porque cada um deles est\u00e1 suscet\u00edvel a estar mais de frente para onde as ondas grandes associadas \u00e0 ressaca est\u00e3o vindo\u201d, revelou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O especialista refor\u00e7ou o entendimento de que a ocupa\u00e7\u00e3o urbana contribui para a ocorr\u00eancia de danos na orla, causados por ressacas. \u201cTodo mundo j\u00e1 foi crian\u00e7a e construiu castelo na areia da praia. Vem uma onda e derruba o castelo. Hoje tem pessoas que constroem as casas quase na areia da praia, quer sair de casa e pisar j\u00e1 na areia. Al\u00e9m disso, se coloca uma ciclovia ou um quiosque, que avan\u00e7am por sobre a praia. Ou seja, qualquer tipo de edifica\u00e7\u00e3o, obra s\u00f3lida, vai receber o impacto das ondas. Nossos av\u00f3s j\u00e1 diziam \u2018\u00e1gua mole em pedra dura, tanto bate at\u00e9 que fura\u2019. N\u00e3o tem jeito. Ao longo do tempo, essas estruturas v\u00e3o sofrendo esses impactos e uma hora acabam desmoronando\u201d, observou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ocean\u00f3grafo destacou ainda que, conforme o Projeto de Gest\u00e3o Integrada da Orla Mar\u00edtima do governo federal, do qual o Erocosta \u00e9 integrante, a recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 que a \u00e1rea de amortecimento em regi\u00f5es urbanas deveria ser de 50 m al\u00e9m da praia. E, em \u00e1reas n\u00e3o urbanas de, pelo menos, 200 m atr\u00e1s da linha da praia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA gente sabe que isso \u00e9 o ideal,\u00a0\u00e9 ter a zona de amortecimento para a dissipa\u00e7\u00e3o da energia das ondas acontecer naturalmente. As nossas praias e restingas, toda a regi\u00e3o litor\u00e2nea, s\u00e3o como se fossem um filtro natural para a energia das ondas. Se n\u00e3o tivesse ali nenhuma edifica\u00e7\u00e3o, naturalmente, fosse a ressaca que fosse, ela seria dissipada pela pr\u00f3pria passagem da onda. Inundaria toda a praia, atingiria a \u00e1rea de vegeta\u00e7\u00e3o e a energia se perderia. Se as constru\u00e7\u00f5es estivessem atr\u00e1s da \u00e1rea de amortecimento, se evitariam muitas coisas\u201d, indicou, sugerindo que na \u00e1rea atingida de Maca\u00e9 haja a remo\u00e7\u00e3o dos escombros e no lugar seja recuperada a vegeta\u00e7\u00e3o de restinga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVamos ter cada vez mais tempestades, ressacas e chuvas mais fortes, inunda\u00e7\u00f5es e secas maiores. \u00c9 um per\u00edodo de mudan\u00e7a clim\u00e1tica, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, mas n\u00f3s seres humanos temos que usar esse nosso conhecimento para nos adaptarmos a isso\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">agenciabrasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A eros\u00e3o da costa do Rio de Janeiro \u00e9 um problema antigo, que se agrava em momentos de grandes ressacas, como ocorreu no \u00faltimo fim de semana em Maca\u00e9, no norte fluminense. 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