 {"id":39477,"date":"2024-09-16T18:14:51","date_gmt":"2024-09-16T21:14:51","guid":{"rendered":"https:\/\/portalmidia.net\/?p=39477"},"modified":"2024-09-16T18:14:51","modified_gmt":"2024-09-16T21:14:51","slug":"obra-de-lupicinio-rodrigues-antecipa-onda-da-sofrencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalmidia.net\/index.php\/2024\/09\/16\/obra-de-lupicinio-rodrigues-antecipa-onda-da-sofrencia\/","title":{"rendered":"Obra de Lupic\u00ednio Rodrigues antecipa onda da &#8220;sofr\u00eancia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito antes da atual onda de \u201csofr\u00eancia\u201d, o cancioneiro brasileiro era povoado por m\u00fasicas de \u201cdor de cotovelo\u201d. Este era o nome que se dava \u00e0 afli\u00e7\u00e3o sentimental do amor n\u00e3o correspondido ou n\u00e3o bem terminado. A express\u00e3o teria origem na imagem de algu\u00e9m tristonho, com os cotovelos apoiados na mesa ou no balc\u00e3o de um bar lamentando a falta de sorte do cora\u00e7\u00e3o. Atire a primeira pedra quem nunca sofreu por amor e curtiu a fossa ouvindo uma can\u00e7\u00e3o de dor de cotovelo.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1612386&amp;o=node\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1612386&amp;o=node\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um vasto repert\u00f3rio de can\u00e7\u00f5es para sentir e sofrer, destaca-se a obra do compositor, cantor e cronista ga\u00facho Lupic\u00ednio Rodrigues. Hoje, 16 de setembro, comemoram-se os 110 anos de nascimento de Lupe, como \u00e9 tratado em Porto Alegre. Lupic\u00ednio Rodrigues foi um fen\u00f4meno: o \u00fanico artista que n\u00e3o morava no Rio de Janeiro, nem em S\u00e3o Paulo, e fazia sucesso nacional desde a d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, as hist\u00f3rias de Lupe\u00a0ganharam um novo livro, escrito pelo tamb\u00e9m compositor e pesquisador musical Arthur de Faria. O nome do livro, que se originou do doutorado de Arthur de Faria em literatura brasileira, \u00e9\u00a0<em>Lupic\u00ednio: Uma Biografia Musical<\/em>, publicado pela editora Arquip\u00e9lago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seguir os principais trechos da entrevista do autor \u00e0\u00a0<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ag\u00eancia Brasil\u00a0<\/strong>\u2013 O seu livro conta que Lupic\u00ednio Rodrigues n\u00e3o sabia tocar nenhum instrumento musical. Mas, a despeito disso, al\u00e9m das letras, compunha melodias com algum grau de sofistica\u00e7\u00e3o. Como isso era poss\u00edvel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arthur de Faria<\/strong>\u00a0\u2013 N\u00e3o d\u00e1 para ter certeza, mas eu acho que ele partia do texto, ou ia fazendo as duas coisas juntas, cantarolando mesmo na cabe\u00e7a dele. O \u00fanico instrumento que o Lupic\u00ednio tocava era a caixinha de f\u00f3sforos. Ele compunha muito em bares, na rua, raramente em casa. Ia sempre encontrar algum parceiro que tocasse algum instrumento harm\u00f4nico [como viol\u00e3o e piano]. Esse parceiro criava o acompanhamento, tocando os acordes que seriam os acordes daquela m\u00fasica.<br \/>\nA grande maioria das m\u00fasicas do Lupic\u00ednio \u00e9 formada por melodias que passeiam muito do grave para o agudo. S\u00e3o melodias de muitas notas e largas extens\u00f5es. H\u00e1 muitas can\u00e7\u00f5es dele que come\u00e7am com um universo de poucas notas, mas, na segunda parte, mais dram\u00e1tica, h\u00e1 saltos mel\u00f3dicos gigantescos. Isso tudo \u00e9 instinto do Lupic\u00ednio.<br \/>\nQuando voc\u00ea faz uma pergunta, a melodia da voz sobe. Ent\u00e3o, se eu te perguntar: \u201cvoc\u00ea sabe o que \u00e9 ter um amor, meu senhor?\u201d, a melodia sobe. O que define que isso \u00e9 uma pergunta, \u00e9 a melodia da fala. Se eu estiver afirmando: como \u201cter loucura por uma mulher\u201d, a melodia desce. A can\u00e7\u00e3o do Lupic\u00ednio sempre acerta nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ag\u00eancia Brasil\u00a0<\/strong>\u2013 Mas como ele aprendeu a fazer isso? Como despertou o interesse pela can\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arthur de Faria\u00a0<\/strong>\u2013 O Lupic\u00ednio nasce em 1914. A Porto Alegre dos anos 1910 e 1920 era um cen\u00e1rio muito efervescente. Era um porto importante aqui do Sul. Era um ponto de trajeto entre grandes companhias europeias que iam do Rio de Janeiro para Buenos Aires e Montevid\u00e9u e paravam em Porto Alegre. Havia \u00f3pera, concerto, teatro e teatro musicado. Tinha muita produ\u00e7\u00e3o musical em Porto Alegre, valsa, polca,<em>\u00a0scottish<\/em>, que j\u00e1 se chamava xote,\u00a0<em>habanera<\/em>, que logo ia se chamar vanera. Tinha uma onda de grupos com formato de<em>\u00a0jazz<\/em>, que tocavam foxtrote, tocavam\u00a0<em>one-step<\/em>,\u00a0<em>two-step<\/em>,\u00a0<em>charleston<\/em>, essas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>\u00a0\u2013 Por falar em Porto Alegre, a cidade \u00e9 a segunda personagem mais importante do seu livro, depois de Lupic\u00ednio. Ainda existem lugares na cidade que ele conheceu e frequentou?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arthur de Faria<\/strong>\u00a0\u2013 Muito poucos. Nenhuma das casas noturnas daquela \u00e9poca existe ainda hoje. O esp\u00edrito bo\u00eamio, transposto para realidade atual, persiste mais fortemente, no bairro da Cidade Baixa, que era o bairro central da bo\u00eamia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ag\u00eancia Brasil\u00a0<\/strong>\u2013 \u00c9 comum aos poetas e aos letristas criarem um personagem, ou at\u00e9 personagens no plural, para expressar sentimentos e convic\u00e7\u00f5es que n\u00e3o necessariamente sejam seus, o chamado \u201ceu l\u00edrico\u201d. No livro, voc\u00ea identifica, em diferentes can\u00e7\u00f5es, situa\u00e7\u00f5es que foram passagens da vida do Lupic\u00ednio, em especial seus envolvimentos amorosos. Ele compunha a partir do que tinha vivido de fato. Podemos dizer que Lupic\u00ednio Rodrigues era um letrista sem o eu l\u00edrico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arthur de Faria<\/strong>\u00a0\u2013 Na verdade, ele fez jogo de cena. Lupic\u00ednio falava que tudo que comp\u00f4s foram coisas que aconteceram com ele. Mentira! Havia nas m\u00fasicas coisas que aconteceram com ele ou que ele ouviu de amigos, coisas que se passaram com amigos e conhecidos, e que ele puxou a hist\u00f3ria para ele. Mas essas pessoas tinham um eu l\u00edrico muito semelhante ao dele. Era o mundo da boemia porto-alegrense, um universo parecido. As alegrias e as patologias similares \u2013 eram muito machistas \u2013 e tinham uma conviv\u00eancia que, para os padr\u00f5es da \u00e9poca, era muit\u00edssimo democr\u00e1tica. Eram homens de qualquer classe social, com forma\u00e7\u00e3o diferente. Podiam ser brancos ou pretos, hetero ou\u00a0<em>gays<\/em>, que n\u00e3o escondiam que eram\u00a0<em>gays<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ag\u00eancia Brasil\u00a0<\/strong>\u2013 Mas o livro conta que m\u00fasicas como \u201cEla disse-me assim\u201d foram experi\u00eancias pr\u00f3prias&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arthur de Faria<\/strong>\u00a0\u2013 O Lupic\u00ednio tinha muito esse gozo do sofrimento amoroso. Ele adorava. Tem um depoimento incr\u00edvel, que est\u00e1 no livro, de um amigo contando que estava caminhando com Lupic\u00ednio na rua e a\u00ed ele diz: \u201cvou ali na casa da fulana\u201d, que era uma das namoradas que ele tinha. Lupic\u00ednio demora e o amigo vai espiar pela janela. Ele v\u00ea Lupic\u00ednio de joelhos na frente da namorada, e ela com um rev\u00f3lver dentro da boca dele. O amigo conta que Lupic\u00ednio estava com uma express\u00e3o beatificada, e n\u00e3o de medo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ag\u00eancia Brasil\u00a0<\/strong>\u2013 No livro voc\u00ea tamb\u00e9m conta que Lupic\u00ednio Rodrigues conheceu o compositor Noel Rosa e os cantores M\u00e1rio Reis e Francisco Alves em Porto Alegre. Que import\u00e2ncia tiveram esses nomes para o compositor ga\u00facho?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arthur de Faria\u00a0<\/strong>\u2013 Lupic\u00ednio j\u00e1 admirava muito o M\u00e1rio Reis. Ainda garoto, ele chegou a ser\u00a0<em>crooner<\/em>, cantor de conjuntos, e era chamado de M\u00e1rio Reis, porque achavam que ele cantava igual ao M\u00e1rio Reis. Assim como Jo\u00e3o Gilberto, Lupic\u00ednio tinha essa refer\u00eancia clara como cantor.<br \/>\nNoel Rosa era ent\u00e3o reconhecido como o maior compositor do Brasil, e o Lupic\u00ednio queria mais do que tudo ser compositor e era um grande f\u00e3 do Noel \u2013 como seria qualquer pessoa que quisesse ser compositor. H\u00e1 a hist\u00f3ria de que Noel, ent\u00e3o com 22 anos, ap\u00f3s ouvir algumas can\u00e7\u00f5es de Lupic\u00ednio, ent\u00e3o com 17 anos, teria dito: \u201cesse menino \u00e9 muito bom.\u201d Eu n\u00e3o posso provar que isso de fato aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>\u00a0\u2013 Uma coisa mais f\u00e1cil de provar \u00e9 a import\u00e2ncia que Francisco Alves teve para Lupic\u00ednio ser um nome nacional, n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arthur de Faria<\/strong>\u00a0\u2013 Exatamente. Algum tempo depois da grava\u00e7\u00e3o com sucesso de\u00a0<em>Se Acaso Voc\u00ea Chegasse<\/em>, por Ciro Monteiro, em 1937], Lupic\u00ednio vai ao Rio de Janeiro, mostrar outras m\u00fasicas dele pra algumas pessoas. Ele mostra v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es para o Francisco Alves, que diz para ele guardar tudo e promete gravar, mas n\u00e3o grava.<br \/>\nEm 1945, o Orlando Silva, que era o segundo cantor mais importante do Brasil, grava uma das m\u00fasicas que o Lupic\u00ednio tinha mostrado para Francisco Alves. N\u00e3o sei se tomar uma bolada nas costas do Orlando Silva, ou se porque percebeu o crescimento do bolero e do samba-can\u00e7\u00e3o, Francisco come\u00e7a finalmente a gravar as m\u00fasicas que o Lupic\u00ednio tinha dado para ele. A\u00ed \u00e9 sucesso depois de sucesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ag\u00eancia Brasil\u00a0<\/strong>\u2013 Falamos de Se Acaso Voc\u00ea Chegasse, que \u00e9 uma m\u00fasica que lan\u00e7a o Ciro Monteiro e duas d\u00e9cadas depois leva Elza Soares ao sucesso. Que diferen\u00e7as t\u00eam essas vers\u00f5es? H\u00e1 outro caso na m\u00fasica brasileira de uma mesma m\u00fasica servir de lan\u00e7amento para dois artistas t\u00e3o distantes, t\u00e3o diferentes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arthur de Faria\u00a0<\/strong>\u2013 N\u00e3o me ocorre nenhuma outra m\u00fasica, nenhum outro caso, ainda mais com intervalo de tempo t\u00e3o grande. A m\u00fasica brasileira estava em outro universo. Elza fez um neg\u00f3cio que, na \u00e9poca, causou pol\u00eamica. Ela j\u00e1 era, sem saber, superfeminista. Ela n\u00e3o canta os versos \u201cde dia, me lava a roupa; de noite e me beija a boca\u201d. Certa vez, Elza explicou: \u201ceu lavei muita roupa de madame e eu n\u00e3o vou cantar um neg\u00f3cio desse.\u201d<br \/>\nAgora a outra boa dela \u00e9 quando grava\u00a0<em>Vingan\u00e7a<\/em>, em meados dos anos 1960. As pessoas acharam que ela estava debochando da m\u00fasica. Em uma entrevista, eu perguntei para ela se estava debochando naquela grava\u00e7\u00e3o. Ela respondeu: \u201cbicho, n\u00e3o d\u00e1 para cantar aquilo a s\u00e9rio,\u00a0<em>n\u00e9<\/em>? Claro que eu estava tirando uma onda desse dramalh\u00e3o.\u201d Meu palpite \u00e9 que o pr\u00f3prio Lupic\u00ednio tamb\u00e9m tirava um pouco de onda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">agenciabrasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito antes da atual onda de \u201csofr\u00eancia\u201d, o cancioneiro brasileiro era povoado por m\u00fasicas de \u201cdor de cotovelo\u201d. Este era o nome que se dava \u00e0 afli\u00e7\u00e3o sentimental do amor n\u00e3o correspondido ou n\u00e3o bem terminado. 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