Nova estratégia da Otan cita China como desafio pela primeira vez e chama Rússia de ‘ameaça direta’

Nova estratégia da Otan cita China como desafio pela primeira vez e chama Rússia de ‘ameaça direta’

Documento com prioridades e diretrizes adota retórica mais próxima à da Guerra Fria, conforme já fazem Estados Unidos.

Reunidos em Madri para sua cúpula anual, os chefes de Estado e de governo dos 30 países que integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) aprovaram nesta quarta-feira um novo Conceito Estratégico para a aliança, um documento que não era revisto desde 2010 e que define as prioridades, as tarefas essenciais e as abordagens para a próxima década do grupo.

O documento cita pela primeira vez nominalmente a China, que em teoria está fora da área de ação da aliança atlântica, classificando-o como um desafio de defesa, e define a Rússia como a “ameaça mais significativa e direta” à segurança dos EUA e seus aliados europeus.

A parte sobre o governo de Pequim afirma que “as ambições declaradas e políticas coercitivas da República Popular da China (RPC) desafiam nossos interesses, segurança e valores. A RPC emprega uma ampla gama de ferramentas políticas, econômicas e militares para aumentar sua presença global e poder de projeção, mantendo-se opaca sobre sua estratégia, intenções e desenvolvimento militar”.

O texto diz também que a China “procura controlar os principais setores tecnológicos e industriais, infraestrutura crítica e materiais estratégicos e cadeias de suprimentos. Ela usa sua alavancagem econômica para criar dependências estratégicas e aumentar sua influência. Ela se esforça para subverter a ordem internacional baseada em regras, inclusive nos domínios espacial, cibernético e marítimo”.

A retórica é próxima à atualmente adotada pelos Estados Unidos, que desenvolvem uma política de rivalidade entre grandes potências, e pressionam os europeus para fazerem o mesmo. Como sinal da importância da competição com a China, Coreia do Sul e Japão foram convidadas para participar da cúpula em Madri, assim como Nova Zelândia e Austrália.

O documento também menciona a possibilidade de relações construtivas com Pequim, o que pode ser entendido como resultado de pressões de membros europeus da aliança, sobretudo Berlim e Paris. Alemanha e França permanecem mais reticentes do que os Estados Unidos quanto à abordagem de hostilidades diretas contra a China, embora cada vez mais cedam à linha de Washington.

“Continuamos abertos a um envolvimento construtivo com a RPC, inclusive para construir transparência recíproca, com o objetivo de salvaguardar os interesses de segurança da aliança”, diz a ressalva.

Na terça, em antecipação ao documento, o embaixador chinês na ONU, Zhang Jun, disse que a Otan causou problemas “em diferentes partes do mundo” e que a tentativa de expandir seu campo de ação para a Ásia poderia provocar conflitos.

— As cinco expansões da Otan para o Leste [Europeu] depois da Guerra Fria não apenas fracassaram em tornar a Europa mais segura como plantaram a semente de conflitos — disse Zhang, em alusão à guerra na Ucrânia.

Sobre a Rússia — que, como herdeira da União Soviética, é a tradicional rival da Otan, criada no início da Guerra Fria — o texto diz que a Federação Russa é a ameaça mais significativa e direta à segurança dos aliados e à paz e estabilidade na área euro-atlântica”.

O documento acusa Moscou de “estabelecer esferas de influência e controle direto por meio de coerção, subversão, agressão e anexação” e de “utilizar meios convencionais, cibernéticos e híbridos contra nós e nossos parceiros”.

Segundo o texto, a Rússia “tem como objetivo desestabilizar países ao nosso leste e sul”. A guerra da Ucrânia, segundo a estratégia, ” destruiu a paz e alterou seriamente nosso ambiente de segurança”. A Otan diz que “o comportamento de Moscou reflete um padrão de ações agressivas russas contra seus vizinhos e a comunidade transatlântica mais ampla”.

A Otan reitera no documento a intenção de que a Ucrânia e a Geórgia façam parte da aliança. A candidatura ucraniana, oficializada durante a Conferência de Bucareste, em 2008, foi um dos motivos alegados para a invasão russa. Atualmente, até o governo de Kiev já desistiu da meta, manifestando várias vezes que aceita assumir uma postura de neutralidade militar — o que significa que o país não integrará alianças — como parte de um acordo.

O texto menciona também a parceria estratégica entre Moscou e Pequim, simbolizada pelo encontro entre os líderes chinês, Xi Jinping, e russo, Vladimir Putin, no início de fevereiro, duas semanas antes da guerra.

“O aprofundamento da parceria estratégica entre a República Popular da China e a Federação Russa e suas tentativas de reforço mútuo de minar a ordem internacional baseada em regras vão contra nossos valores e interesses”, diz o documento, repetindo a expressão habitualmente usada por Washington para se referir à ordem sob sua liderança, estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial.

Os documentos também afirmam que as mudanças climáticas são “um desafio definidor do nosso tempo”. O aquecimento global é descrito como um “multiplicador de crises e ameaças”, por causar “o aumento do nível do mar, incêndios florestais, e eventos climáticos extremos mais frequentes, perturbando nossas sociedades, minando a nossa segurança e ameaçando a vida e os meios de subsistência dos nossos cidadãos”. Ainda assim, há só um parágrafo exclusivamente dedicado ao tema, no documento de 16 páginas.

Durante a Cúpula de Madri, os líderes ocidentais anunciaram que as forças da Otan de prontidão subirão para 300 mil, de um atual contingente de 40 mil soldados. A este respeito, o conceito estratégico diz que os seus membros “reforçarão significativamente nossa postura de dissuasão e defesa para negar a qualquer adversário potencial quaisquer oportunidades possíveis de agressão. Para isso, iremos assegurar uma presença substancial e persistente em terra, no mar e no ar, incluindo através do reforço da defesa aérea e antimísseis integrada”.

O Conceito Estratégico é atualizado aproximadamente a cada década e é o segundo documento mais importante da Otan, atrás só do fundador Tratado do Atlântico Norte, de 1949.

Segundo a organização, o documento “reafirma os valores da aliança, fornece uma avaliação coletiva dos desafios de segurança e orienta as atividades políticas e militares da aliança”. A versão anterior foi adotada na Cúpula da Otan em Lisboa em 2010.

Por O Globo

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