Recife foi o primeiro destino da rainha Elizabeth II em sua única visita ao Brasil

Na capital pernambucana, a monarca presenciou um apagão e aprovou suco de pitanga. ‘O Recife todinho veio para a rua assistir à passagem da rainha’, disse o escritor Leonardo Dantas, que acompanhou a recepção.

A única visita da Rainha Elizabeth II ao Brasil, entre os dias 1º e 11 de novembro de 1968, começou pelo Recife e gerou comoção na capital de Pernambuco. Acompanhada do Príncipe Philip, a monarca presenciou um apagão, provou e aprovou suco de pitanga e passou uma imagem de simplicidade para quem acompanhou tudo.

Foi o que contou o escritor Leonardo Dantas, de 76 anos. Ele era repórter do Jornal do Commercio e assessor do cerimonial de Paulo Fernando Craveiro, que na época era secretário da Casa Civil de Pernambuco. Por isso, foi o escolhido e credenciado para a cobertura.

A Rainha Elizabeth II morreu nesta quinta (8) aos 96 anos no castelo de Balmoral, na Escócia. O anúncio foi feito pelas redes sociais da família real britânica.

Quando visitou o Recife Elizabeth II tinha 42 anos de idade e 16 de reinado. Ela chegou na cidade em avião oficial em 1º de novembro de 1968 às 16h15. Veio a bordo de uma aeronave da Real Força Aérea, um modelo VC-10. O Príncipe Philip, que vinha do México, onde eram realizados os Jogos Olímpicos, chegou 15 minutos antes.

Do aeroporto, o casal seguiu em carro aberto pelas ruas da capital pernambucana até o Palácio do Campo das Princesas, sede do governo estadual na área central da cidade, onde foi oferecida uma recepção que durou quase uma hora. Era um período de ditadura militar no Brasil.

Visita real ocorreu em plena ditadura militar — Foto: Arquivo Nacional

Na sede do executivo estadual, o casal real foi recebido pelo então governador Nilo Coelho (1920-1983). Participaram da recepção, entre outros, o escritor e antropólogo Gilberto Freyre (1900-1987), autor de “Casa-Grande & Senzala” (1933) e o religioso Dom Hélder Câmara (1909-1999), arcebispo de Olinda e Recife.

“Ela foi pontualíssima. Veio em carro aberto do aeroporto até o Palácio. Foi feriado e o Recife todinho veio para a rua assistir à passagem da Rainha”, contou o escritor.

Um contratempo marcou a visita ao Palácio do Campo das Princesas. O Recife ficou sem energia por 25 minutos, exatamente quando a Rainha Elizabeth II era recebida da sede administrativa do executivo estadual.

“Aí foi um mal-estar danado e se teve que pegar as velas que eram de decoração e acender os candelabros. A visita teve que ser à luz de velas”, lembrou Leonardo Dantas.

Todo o corpo consular participava da visita, assim como os secretários e representantes do Poder Judiciário. Mesmo sem energia, a recepção continuou.

O escritor contou que a monarca seguiu para o terceiro andar, onde provou o suco de pitanga, fruta nativa do Brasil que é encontrada naturalmente em regiões de Mata Atlântica.

“Ela serviu-se no pequeno lanche e adorou suco de pitanga. Ficou encantada com o suco de pitanga. E Nilo Coelho mandou entregar algumas caixas de pitanga in natura no Britannia, que era o iate real da Marinha Inglesa”, afirmou Leonardo Dantas.

Segundo o escritor, o que chamou a sua atenção foi a simplicidade da monarca. “Uma pessoa simples, sem nenhuma formalidade. E o príncipe Philips foi o primeiro a pegar um candelabro e desfilar ao lado dela com o candelabro aceso. Foi uma cena até romântica”, disse.

Leonardo Dantas lembrou que a imprensa acompanhou tudo, mas foi separada das autoridades por um cordão de isolamento. Ele guarda a credencial e o brinde que recebeu na recepção até hoje.

“Ficou uma lembrança como mais uma cobertura, mas logicamente foi especial porque, afinal de contas, era uma rainha e foi uma coisa completamente diferenciada, tanto é que eu tenho até hoje a minha credencial e o brinde, que eram caixas pequenas com o retrato dela”, disse.

Depois da recepção no Palácio do Campo das Princesas, a rainha seguiu para o Porto do Recife, onde estava ancorado o iate. “Ela veio de avião e daqui que ela embarcou no Britannia”, lembrou.

A caminho do cais do porto, quando o cortejo real passou diante da sede do Diário de Pernambuco, a Rainha pediu que o carro parasse e acenou para os funcionários. O jornal faz parte do grupo Diários Associados, fundado pelo empresário Assis Chateaubriand (1892-1968).

Entre 1957 e 1961, durante o governo Juscelino Kubitschek, Chatô, como era mais conhecido, serviu como embaixador do Brasil no Reino Unido. À época, presenteou sua majestade com um colar e um par de brincos de água-marinha.

A rainha da Inglaterra e o duque de Edimburgo embarcaram às 18h30 para Salvador, onde chegaram às 7h do dia 3, um domingo. Os dois conheceram seis cidades em 11 dias e arrastaram multidões por onde passaram.

G1

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