Vítima de feminicídio relatou jeito controlador de ex-namorado antes de ser morta: ‘Não podia fazer nada na minha vida’

Áudios enviados pela frentista Raissa Raiara a uma amiga, por aplicativo de bate-papo, mostram a preocupação que a mulher tinha com o ex-namorado, Francisco Dunga Sousa, após o término do namoro de ambos. Francisco é o principal suspeito de ter assinado Raissa na tarde de sábado (2), no município de Bonito de Santa Fé, Sertão da Paraíba.

Na conversa, a vítima descreve o ex-namorado como um homem controlador, que a proibia de ter vida social, de ter amigos, até mesmo de trabalhar.

“Ele queria que eu vivesse só para ele. Eu não podia ter amizade com ninguém, eu não podia conversar com ninguém, eu não podia ir na academia, eu só podia ir na padaria sozinha, não podia ir para outro lugar. Sei lá, não podia fazer nada na minha vida, não podia arrumar um trabalho, tinha que ir trabalhar lá com ele e… meu Deus, eu estava… sabe… eu estava para enlouquecer já”, desabafa ela na mensagem.

Em outro áudio, ela relata que deixou muitas coisas suas na casa onde os dois moraram, em João Pessoa, e que chegou a comprar passagem para a capital paraibana com o intuito de pegá-las. Depois, se arrependeu da decisão por temer o que poderia acontecer. “Eu fiquei pensando que não, se eu for buscar minhas coisas não vai dar certo”, prevê ela.

Raissa Raiara explica que ainda pediu para que o ex-namorado enviasse seus pertences para seu novo endereço, mas que isso nunca aconteceu. “Ele disse: eu vou mandar. Mas até hoje nunca que mandou. Já deve ter tocado é fogo”, lamenta.

A mulher trabalhava como frentista em um posto de gasolina na tarde de sábado (2) quando um homem chegou de moto. Ele desceu do veículo, puxou um revólver de dentro de uma sacola plástica e atirou na cabeça dela à queima-roupa.

A vítima teve morte imediata, enquanto o homem fugiu. Câmeras de segurança flagraram o crime e o ex-namorado é tido pela Polícia Civil da Paraíba como o autor dos disparos.

Raissa morava em Bonito de Santa Fé desde o fim do namoro, o que aconteceu há cerca de três meses. Testemunhas relataram que ele não aceitava o fim da relação e que ela foi para o Sertão justamente para se afastar do suspeito, que seguiu morando em João Pessoa.

De acordo com um levantamento interno do Núcleo de Dados da Rede Paraíba de Comunicação, Raissa é a quinta mulher vítima de feminicídio de janeiro até agora na Paraíba. Os dados são consolidados a partir de declarações das autoridades no momento do crime e indicam que as mulheres foram mortas por maridos, namorados, ex-maridos e ex-namorados.

Desabafo da mãe

 

Dois dias depois do crime, Maria Risalva, mãe de Raissa Raiara, resolveu quebrar o silêncio e fazer um depoimento emocionado. Ela se disse revoltada e devastada com tudo o que aconteceu.

“Meu relacionamento com minha filha não era relacionamento de mãe e filha. Era de irmã, era de amiga. Ela era um anjo, muito querida por todo mundo. Não tinha maldade com ninguém. Ela tinha três filhos, uma mãe maravilhosa para os filhos”, relembrou.

Em tom desesperado, ela lamenta o fato do crime seguir impune. E pede justiça.

“Chega esse bandido e tira a vida da minha filha friamente. Chega, saca uma arma e dá dois tiros na cabeça da minha filha. Está impune, no meio do mundo, e minha filha enterrada. Ele acabou com minha vida”, desbafa. “Eu espero que esse bandido seja preso, que seja feito justiça. Eu peço justiça, pelo amor de Deus. Justiça, meu deus, me ajuda, que essa dor não sai de mim”, completa, chorando.

Como denunciar violência contra a mulher

 

As denúncias de casos de violência contra a mulher podem ser feitas por telefone, por meio dos seguintes números:

➤ Emergência: ligue 190 para falar com a Polícia Militar

O atendimento telefônico é gratuito e imediato. A central 190 funciona 24 horas.

➤ Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher

Outro meio para denunciar os crimes de violência doméstica é ligar para o 180, a Central de Atendimento à Mulher, do governo federal.

O serviço registra e encaminha denúncias aos órgãos competentes e fornece informações sobre os direitos das mulheres, bem como os locais de atendimento mais próximos e apropriados para cada caso, como as Delegacias de Atendimento à Mulher (Deam).

➤ Ligue 197: Disque Denúncia da Polícia Civil

Além disso, na Paraíba o aplicativo SOS Mulher PB está disponível para celulares com sistemas operacionais Android e IOS e tem diversos recursos, como a denúncia por formulário e e-mail.

As informações são enviadas diretamente para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, que fica encarregado de providenciar as investigações.

G1