“Teria amputado para viver mais”, diz homem que teve câncer de pênis

O vigilante José, de 55 anos, lembra que tudo começou com uma dor em uma parte do pênis conhecida popularmente como freio, um pedaço de pele que conecta a glande à superfície interna do prepúcio. Ele não sabia, mas ali iniciava sua jornada contra o câncer de pênis.

Em questão de quatro meses, com um vai e vem de exames sem um diagnóstico fechado, a doença piorou e quase levou os médicos a amputarem o órgão de José. No final do ano passado, ele fez duas cirurgias para remover lesões no pênis e, por segurança, os gânglios linfáticos próximos a ele.

“Teria feito a amputação se fosse para viver mais. Estava disposto, queria e sigo querendo viver. Tenho 55 anos, não posso me desesperar e achar que minha vida acabou. Tem tanta gente que perdeu mais que eu e segue lutando pela vida”, reflete o paciente.

Coragem para lidar com o problema

No entanto, a coragem de José para enfrentar o tratamento é uma exceção. O urologista Rodolfo Borges dos Reis, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e chefe da divisão de Urologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, afirma que a enfermidade ainda é um grande tabu entre os homens.

“Ainda há muita resistência em buscar o médico para assuntos que envolvem o pênis. Além disso, os homens, muitas vezes, são descuidados com a própria saúde”, afirma o médico.

De acordo com o Ministério da Saúde, nos últimos dez anos, ocorreram cerca de 600 amputações de pênis a cada ano. Além disso, são cerca de 2,1 mil diagnósticos ao ano e 400 mortes devido ao câncer de pênis que, se diagnosticada a tempo, tem fácil tratamento.

A prevenção também é simples: manter a higiene adequada, tomar a vacina contra o HPV e realizar a cirurgia de fimose seriam o bastante para praticamente zerar os casos.

“A higiene correta impede o acúmulo do esmegma, que irrita a mucosa do pênis e facilita a formação do câncer. Além disso, evitar infecções sexualmente transmissíveis e a zoofilia são outras medidas importantes para a prevenção”, explica Reis.

O caso de José

Uma semana depois do início da dor, o pênis de José começou a inchar e ele decidiu procurar o médico.

“Fiz um monte de exames, mas não chegavam a conclusão de que era um câncer”, relembra. Acreditando que se tratava de uma infecção sexual, os médicos recomendaram o uso de uma pomada.

A pomada resolveu temporariamente, mas, logo em seguida, uma bolha se formou no pênis do vigilante. “Da segunda vez, veio violento. A parte da frente do pênis ficou toda roxa e foi inchando de secreção. Não latejava e nem doía, mas estava tudo muito inchado. Paguei um médico particular para fazer outro exame, mas ele também não fechou o diagnóstico”, diz.

Após vários exames inconclusivos, os urologistas decidiram fazer uma cirurgia para retirar o caroço que havia se formado no pênis do vigilante, e submeteram o tecido à biópsia .

Nova cirurgia

Três dias depois de terem observado a extensão da lesão na mesa de cirurgia, os médicos decidiram submeter o paciente a um novo procedimento. O resultado da biópsia ainda nem havia saído, mas os médicos tinham praticamente certeza de que era um câncer de pênis.

“Não sabiam se estava só na ponta, se estava no corpo do órgão, então voltei para o centro cirúrgico sem ter ideia de como sairia. Lá mesmo eles identificaram que não seria necessária a amputação, só a remoção da área comprometida e dos linfonodos”, relembra o vigilante.

Após o susto, ele comemora que está se recuperando bem. “Fiz e logo tive que voltar ao trabalho. Ainda não estou 100%, fico muito cansado, mas estou fazendo o acompanhamento médico e, até agora, não precisei nem tomar medicamentos de quimioterapia. Espero já estar curado”, conclui ele.

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