A presença do caramujo africano em quintais, jardins e terrenos baldios tem se tornado cada vez mais comum em áreas urbanas. De hábitos noturnos e reprodução acelerada, o molusco chama atenção não apenas pelo volume em que aparece, mas principalmente pelos riscos que representa à saúde pública e ao meio ambiente. O Conselho Regional de Medicina Veterinária da Paraíba (CRMV-PB) e a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas-PB) reforçam orientações à população sobre como agir de forma segura em relação a estes moluscos.
O caramujo africano, conhecido cientificamente como Achatina fulica, é uma espécie exótica invasora originária da África. Ele foi introduzido no Brasil de forma irregular na década de 1980, com o objetivo de ser comercializado como alternativa ao escargot. No entanto, sem mercado consumidor, muitos criadores acabaram soltando os animais na natureza, o que contribuiu para sua rápida disseminação pelo país.
Sem predadores naturais e com alta capacidade de reprodução, podendo colocar centenas de ovos por ciclo, o caramujo se espalha com facilidade, principalmente em locais úmidos, com acúmulo de lixo e matéria orgânica. Hoje, já está presente em grande parte do território brasileiro, tanto em áreas urbanas quanto rurais.

Segundo o gerente executivo de Fauna Silvestre da Semas, Juan Mendonça, a presença do animal em áreas urbanas está diretamente ligada às condições ambientais. “Esses caramujos encontram nas cidades um ambiente favorável, com abrigo e alimento fácil. O problema é que, além de causarem desequilíbrio ambiental e prejuízos a hortas e plantações, também representam riscos à saúde da população. Por isso, é fundamental evitar o contato direto e adotar medidas corretas de manejo”, explica.
O médico-veterinário José Cecílio, presidente do CRMV-PB, alerta que o caramujo africano pode atuar como hospedeiro de parasitas responsáveis por doenças que colocam em alerta a saúde pública. “Esse molusco está associado à transmissão de zoonoses como a meningite eosinofílica e a angiostrongilíase abdominal, causadas por vermes do gênero Angiostrongylus. A infecção ocorre pela ingestão de alimentos contaminados com larvas do parasita, presentes no muco deixado pelo animal, especialmente em verduras e frutas mal higienizadas”, destaca.
Essas doenças podem afetar diferentes partes do organismo. No caso da meningite eosinofílica, o sistema nervoso é atingido, podendo causar dor de cabeça intensa, febre, rigidez na nuca e alterações neurológicas. Já a angiostrongilíase abdominal compromete o intestino, provocando dores abdominais, febre e outros sintomas gastrointestinais. A contaminação é considerada acidental, mas exige atenção, principalmente em ambientes onde há presença frequente do molusco.
Embora o contato direto não seja a principal forma de transmissão, ele deve ser evitado, especialmente sem proteção. “O risco está na contaminação indireta. Ao tocar no animal ou em superfícies com muco e, em seguida, levar as mãos à boca, olhos ou alimentos, a pessoa pode se expor aos parasitas. Por isso, o uso de luvas e a higienização adequada são fundamentais”, reforça o médico-veterinário.
Como agir – A orientação é nunca tocar diretamente no animal. Caso seja necessário realizar a remoção, o procedimento deve ser feito com cuidado. “O ideal é usar luvas ou sacos plásticos para evitar contato com a pele. A coleta deve ser feita, preferencialmente, no início da manhã ou à noite, quando eles estão mais ativos”, orienta José Cecílio.
Após a coleta, os caramujos devem ser eliminados de forma segura. Métodos como esmagamento com proteção, imersão em solução salina ou água fervente são recomendados antes do descarte. Também é fundamental eliminar possíveis criadouros, mantendo quintais limpos, sem acúmulo de entulho, restos de alimentos ou materiais que possam servir de abrigo.
Não confundir com espécies nativas – Outro ponto de atenção é evitar a eliminação de moluscos nativos, como o aruá-do-mato (Megalobulimus sp.), que não oferecem os mesmos riscos e têm papel importante no ecossistema. Em caso de dúvida, o ideal é procurar orientação de órgãos ambientais.
Para Juan Mendonça, a informação é a principal ferramenta de controle. “A população precisa entender que o combate ao caramujo africano passa pela prevenção. Evitar acúmulo de lixo, não deixar restos de alimentos expostos e agir corretamente ao encontrar o animal são medidas simples, mas eficazes. A recomendação é clara: não manipular sem proteção e manter o ambiente limpo”, reforça.





